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Os Hor√°rios s√£o TMG




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MensagemEnviado: segunda set 16, 2013 10:27 am 
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Estranheza, fasc√≠nio, √≥dio. S√£o contradit√≥rios e m√ļltiplos os sentimentos que eles despertam. Objecto de paix√Ķes t√£o fundas e tel√ļricas como as que os movem, os forcados, os pegadores de toiros, podem ser, ou parecer, tudo e mais alguma coisa. Mas existem. E s√£o muitos. Quem s√£o eles, afinal?

Faltam duas horas e eles v√£o-se juntando √† porta de um hotel, do lado de l√° da Av. da Rep√ļblica, em frente √† pra√ßa de toiros do Campo Pequeno, em Lisboa. N√£o fossem os sacos que todos t√™m a seu lado, no ch√£o, nada os distinguiria dos jovens que por ali passam a caminho do metro. Falam baixo, e quase nada. Mas percebe-se que h√° expectativa e tens√£o no ar. Da√≠ a pouco, j√° no interior do hotel, um deles, Vasco, decidir√° uma estranha coisa: quem se farda e quem n√£o se farda.

Fardar-se significa poder enfrentar, sem qualquer defesa, os cornos de um animal de 600 quilos que faz parte da festa deles, mas que não está ali para festas. Não se fardar, e é isso que acontecerá a metade daquelas três dezenas e meia de jovens, equivale a ficar nas bancadas da praça. Como mero espectador.

"Fardar-se é um prémio para os mais experientes e para os que estão em melhor forma. Desta vez não tive essa sorte", lamentará depois um deles. Mas, entre os 18 eleitos, só alguns terão o privilégio, assim o consideram unanimemente, de alinhar nos grupos de oito que Vasco, o cabo dos Forcados Amadores de Alcochete, designará naquela noite do meio de Agosto para pegar cada um dos três toiros que lhes couberam na corrida.

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Os 18 forcados do grupo de Amadores de Alcochete fardam-se num hotel

Escolhidos os que se v√£o fardar, o que se segue no corredor e em dois quartos do s√©timo piso do hotel √© um demorado processo de transforma√ß√£o de rapazes iguais aos outros em figuras coloridas, de meias brancas rendadas, cal√ß√Ķes justos e jaquetas de ramagens. Terminada a farda√ß√£o, com a ajuda de alguns dos que n√£o tiveram a tal sorte - sobretudo no aperto da cinta vermelha de quase cinco metros, que lhes vais cortar a respira√ß√£o, mas proteger as costelas e o externo -, a√≠ est√£o eles prontos para o que der e vier.

Reunidos √† volta da cama de um dos quartos, vestidos a preceito, abra√ßados ombro a ombro, √© a altura do cabo, irm√£o e comandante, romper o sil√™ncio sepulcral: "Malta! Agora h√° que deixar o stress, a press√£o, aqui no quarto e respirar fundo. Agora chegou o momento de fazer o que gostamos com galhardia e arte." E logo a seguir ao grito colectivo - "Viva o nosso grupo! Viva!" -, repartem abra√ßos e palmadas sonoras nas palmas das m√£os uns dos outros e l√° v√£o eles, a p√©, a caminho do Campo Pequeno. Vasco Pinto, 31 anos, forcado desde os 16, cabo do grupo e rela√ß√Ķes p√ļblicas de uma grande empresa de distribui√ß√£o comercial, beija a m√£o direita e a jaqueta, benze-se e fecha a porta do quarto.

A atravessar a Av. da Rep√ļblica, alheio ao ru√≠do ensurdecedor das panelas e buzinas dos grupos antitouradas, Diogo Van Den Toorn, um gigante de 25 anos, filho de pai holand√™s, ignora o protesto, tal como os outros, e relativiza a √ļnica coisa que lhes vai na alma. "Claro, h√° ansiedade. Mas √© uma ansiedade positiva de quem quer fazer bem as coisas."


A arte de abraçar o toiro

J√° na arena, o toiro Primillo, nascido em 2009, irrompe como um foguete, com os seus 608 quilos.

Os rapazes de Alcochete est√£o atr√°s das barreiras que rodeiam a arena, silenciosos, em frente aos colegas do Aposento da Moita, a quem foram destinados os outros tr√™s animais. Vasco, afastado do grupo, benze-se repetida e discretamente. Observa o toiro com cuidado, estuda-o em pormenor: a forma dos cornos, a maneira como investe contra o cavalo e o cavaleiro que lhe crava as farpas. √Č o momento de decidir, sozinho, quem, entre os 18 fardados, ir√° fazer o qu√™. Em especial quem ser√° o homem da cara, aquele que ir√° na frente.

Malta! Agora h√° que deixar o stress, a press√£o, aqui no quarto e respirar fundo. Agora chegou o momento de fazer o que gostamos com galhardia e arte
Vasco Pinto, cabo dos Forcados Amadores de Alcochete


Ruben Duarte, 27 anos, mais pequeno do que grande, √© o escolhido. Brinda a pega a Nuno Carvalho ("Mata", por alcunha), o companheiro de grupo que est√° numa cadeira de rodas, nas bancadas, no meio do p√ļblico entusi√°stico. H√° precisamente um ano, naquela mesma pra√ßa, sofreu uma colhida dram√°tica que o deixou tetrapl√©gico.

Dois ou três minutos depois, é Ruben quem jaz inanimado na areia vermelha, à mercê de Primillo. Levado pelos socorristas e pelos colegas (com um traumatismo craniano que se resolveu depois da passagem pelo hospital), o seu lugar é imediatamente ocupado por Tomás Torre do Vale, 22 anos.

O toiro mant√©m-se indom√°vel. Tom√°s, depois da alguns segundos aninhado l√° em cima, entre os cornos do animal, √© tamb√©m atirado pelo ar. Consegue levantar-se, com o nariz e a boca a escorrer sangue, j√° sem sapatos, e retoma o seu lugar, com o passo inseguro. Pela segunda vez, repete a aproxima√ß√£o ritual (citar, parar, templar - diz-se na g√≠ria taurina), debaixo do sil√™ncio angustiado do p√ļblico e do olhar compenetrado do cabo. Chama o toiro, avan√ßa destemido, inebriado, sem que transpare√ßa uma sombra do medo que ele supera. Sabe-se l√° como e porqu√™. Recua e tenta o encontro, o encaixe, a reuni√£o, a uni√£o, o abra√ßo, o beijo - tudo palavras que eles usam para nomear a mesma coisa, a pega, "a arte de abra√ßar o toiro".

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O grupo entra na arena, com o cabo à direita atrás de Diogo Van Den Toorn

Mas n√£o, Tom√°s n√£o consegue. O derrote, a sacudidela monumental da cabe√ßa de Primillo, f√°-lo voar pela segunda vez, antes que os outros sete consigam ajud√°-lo. Vasco, atr√°s das t√°buas das barreiras, de bra√ßos cruzados e semblante carregado, benze-se, beija a jaqueta, domina as emo√ß√Ķes como quem rasga a pele a frio. D√° instru√ß√Ķes aos seus homens e Tom√°s, que assim o quer, vai √† terceira. Novamente descal√ßo e coberto de sangue.

Atrás das barreiras e nas bancadas bem compostas de aficionados, vestidos de cores garridas, entre eles muitos jovens e até crianças, a expectativa e a ansiedade fazem suster a respiração. Tomás avança, lentamente. O resultado repete-se. Passados uns segundos está estendido no chão, sem se mexer.

Ergue-se logo a seguir, a grande custo, a cambalear, enquanto os companheiros o amparam, agora já com menos um dente na boca. Mesmo assim esboça o regresso, tenta em vão voltar para o toiro, mas sai em braços, com o cabo atrás e os aficionados a aplaudir vibrantemente.

Os de fora, os que não são dali, interrogam-se seguramente: o que é isto? Como é que pode ser?


Sentir o medo e control√°-lo

A noite não será de glória (como eles dizem) para os amadores de Alcochete. Primillo acabará por ser imobilizado de cernelha, por dois homens, um deles com a jaqueta empastada de sangue próprio e do animal. Os outros dois serão pegados à segunda tentativa, um pelo cabo Vasco, que lhe falou baixinho - Eh toiro! Eh toiro!, quase num sussurro. "Pegámos os toiros todos, é o mais importante", diz já em frente à praça o meio holandês Diogo. O menos desanimado de todos é Nuno Mata, que ali confraterniza, na sua cadeira de rodas, com os amigos, familiares, namoradas. E com os vizinhos e vencedores da noite, os amadores da Moita, que ali fizeram grandes pegas. "A primeira coisa que pensei depois do acidente foi em voltar à arena." Para ele, é assim que se enfrentam os desaires.

1300 a 1400 forcados, com idades entre os 17 e os 33 anos, constituem os cerca de 50 grupos de forcados amadores (não há profissionais desde meados do século XX), todos a sul de Coimbra

O que √© que faz estes jovens correr para os cornos do toiro? Exporem-se √† morte gratuitamente, sem sequer ganharem um c√™ntimo para o fazer? "Quando vamos para l√°, n√£o pensamos nisso. Vamos para desfrutar um momento √ļnico na vida", explica Jo√£o Salva√ß√£o, 32 anos, filho de uma fam√≠lia de aficionados e forcados, cabo do outro grupo de Alcochete, o do Aposento do Barrete Verde de Alcochete, e empres√°rio de piscicultura. "S√≥ quem j√° o fez √© que pode saber o que √©." E ele f√°-lo desde os 13 anos. Sabe bem o que √©, j√° foi colhido v√°rias vezes e h√° quatro anos ganhou para toda a vida a marca de uma grave colhida em que perdeu o olho direito. Mas isso s√£o ossos do of√≠cio, coisas que s√≥ v√™m √† conversa l√° muito para diante.

"Sentir o medo e saber control√°-lo. Ir calmamente em direc√ß√£o ao toiro. Ir buscar for√ßas ao imagin√°rio para ficar na cara do toiro. √Č quase org√°smico quando as coisas correm bem." Jo√£o Ventura, 23 anos, gestor de base de dados numa empresa de inform√°tica, reside em Mele√ßas (Sintra) e pega h√° tr√™s anos com o Aposento da Moita. A sua explica√ß√£o, sobretudo a "org√°smica", colhe o aplauso dos companheiros, numa esplanada da vila ribeirinha. "Al√©m da satisfa√ß√£o pessoal e da paix√£o pelos toiros, move-me o facto de estar ali, perante um grande desafio, entre amigos, numa fam√≠lia."

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Forcados Amadores de Alcochete no decurso de uma corrida no Campo Pequeno

Jos√© Pedro Pires da Costa, cabo deste grupo e filho do seu fundador, insiste naquela que todos apontam como a mola que os empurra: "√Č o desafio de ultrapassar a barreira do medo." As palavras n√£o lhe chegam. "Quando a pega √© concretizada e o toiro p√°ra, a sensa√ß√£o √© indescrit√≠vel." Tudo isto parece contradit√≥rio, reconhece, falando de riscos e afectos. "Enfrentamos um toiro com 500 quilos e ali na pra√ßa damos beijinhos uns aos outros." A s√≠ntese √© curta: "Ser forcado √© ser forcado..." - "√Č tudo", completa Jo√£o, o inform√°tico delicado que pesa todas as palavras.

Vindo de outra gera√ß√£o e de uma fam√≠lia onde os toiros e os cavalos fazem parte da casa desde h√° muito, o gestor Domingos Figueiredo, 50 anos, filho do marqu√™s da Graciosa, tem idade, e autoridade, para falar de outro modo. "Pegar toiros √© uma pessoa querer superar-se a si pr√≥prio. A hist√≥ria da adrenalina, dos desportos radicais. √Č andar no limite. Dominar o medo." Para ele, que andou dos 18 aos 23 anos num "grupo elitista", o dos Amadores de Santar√©m, "o medo √© o estado permanente do valente". Mas n√£o √© s√≥ o desafio de o vencer que os puxa para aquilo. "H√° aqui tamb√©m uma coisa [de que s√≥ ele fala] que tem que ver com as mi√ļdas. As mulheres t√™m uma atrac√ß√£o especial pelos forcados."

Nuno In√°cio, 26 anos, estudante de Agronomia e filho de uma fam√≠lia ligada aos cavalos e ao campo (produtores de vinho em Alenquer) n√£o vai por a√≠. Salienta que "h√° momentos cru√©is" para os forcados, mas garante que nessas alturas, quando as coisas correm mal, a express√£o "nunca mais" n√£o lhe vem sequer √† cabe√ßa. "O que pensamos √© fazer melhor da pr√≥xima vez. √Č uma maneira muito gratificante de estar na vida." Nuno In√°cio pega com o Aposento da Moita desde os 16 anos e identifica uma outra raz√£o para fazer o que faz. " √Č a passagem de um testemunho de valores, dos mais velhos para os mais novos" - uma ideia presente em muito do discurso que os forcados elaboram sobre eles pr√≥prios.

"√Č poder contribuir para uma arte e para uma festa que nos distingue como povo", considera Vasco Pinto, o cabo dos Amadores de Alcochete. E o que √© que ganham com isso? "O carinho, a amizade dos membros do grupo, dos amigos e dos familiares. E o reconhecimento do p√ļblico", responde Vasco, que este m√™s concorre √† presid√™ncia da C√Ęmara de Alcochete, como independente pelo CDS.

Nas explica√ß√Ķes dos forcados, para l√° da linguagem que remete para conceitos de p√°tria e para valores ancestrais com pouca cota√ß√£o no tempo actual, s√£o recorrentes as alus√Ķes √† festa. O que √© a festa, Vasco? "A festa √© o sentimento de partilha e de uni√£o que existe entre todos os intervenientes [no espect√°culo]. S√£o horas de ang√ļstia e de gl√≥ria que se partilham."


Jovens iguais aos outros

Feitas as contas, os quase 50 grupos de forcados amadores existentes em Portugal (n√£o h√° profissionais desde meados do s√©culo XX), todos a sul de Coimbra, sobretudo no Ribatejo, no Alentejo e na ilha Terceira (dois), re√ļnem 1300 a 1400 jovens com idades entre os 17 e os 33 anos - raramente um pouco mais. A estes h√° ainda que somar alguns milhares, de sucessivas gera√ß√Ķes, que j√° deixaram as arenas, mas que continuam a acompanhar a vida dos grupos em que passaram a juventude.

Entre os que estão no activo, e são cada vez mais, garantem eles, a média de idades ronda os 22/23 anos. São maioritariamente estudantes, embora haja muitos profissionais de todos os ofícios, incluindo engenheiros, médicos, militares, empresários ou trabalhadores indiferenciados.

Grande parte vem de fam√≠lias que partilham o gosto pelas actividades taurom√°quicas, muitas delas com liga√ß√Ķes ao campo e aos cavalos. Alguns s√£o filhos de fam√≠lias abastadas, por vezes da antiga nobreza. Outros h√° que n√£o correspondem a este clich√© e est√£o mais perto das origens. Quando os mo√ßos de forcados eram gente pobre e os ricos eram cavaleiros. E h√° grupos mais elitistas e outros mais populares. At√© os h√° que, politicamente, t√™m uma hist√≥ria que se cruza com a direita e outros com a esquerda. Certamente mais com a primeira. Tamb√©m os h√°, ou pelo menos h√° membros seus, que se aproximam dos estere√≥tipos do arruaceiro, do machista, do marialva. Como h√° forcados educados e sens√≠veis, que est√£o a l√©guas de dist√Ęncia do que os seus advers√°rios v√™em neles.

Sentir o medo e saber control√°-lo. Ir calmamente em direc√ß√£o ao toiro. Ir buscar for√ßas ao imagin√°rio para ficar na cara do toiro. √Č quase org√°smico quando as coisas correm bem
Jo√£o Ventura, forcado da Moita


Nas aprecia√ß√Ķes que fazem de si pr√≥prios, sobressai a ideia simples de que s√£o jovem iguais aos outros. Com uma caracter√≠stica essencial: est√£o ligados por uma amizade √ļnica, pelo companheirismo e pela camaradagem. "A amizade que se gera entre os forcados √© muito diferente da que existe no futebol. Nos forcados damos o corpo pelos amigos, corremos risco de vida juntos. √Č outra coisa", argumenta Miguel Jacob, um homem de 43 anos que esteve no Aposento da Moita entre 1982 e 1987 e hoje trabalha na √°rea comercial de uma empresa. "O Aposento, que continuo a acompanhar, foi para mim uma escola de virtudes. Arranjei amigos para o resto da vida, mesmo noutros grupos."

Semanas depois, Nuno Mata, sentado à mesa da esplanada da Moita, interrompe a troca de mensagens que já consegue digitar com as talas que lhe prendem os dedos. Bebe um gole da mini que um dos amigos lhe leva à boca, e atira na mesma direcção. "Há pessoas que entraram aqui sem qualquer tipo de educação e saíram de cá uns senhores. Os forcados são a tropa que muitos não tiveram."

A ligação entre eles é tão forte que entre Outubro, quando acabam as corridas e as pegas, e Fevereiro, altura em que começam os treinos nos "tentaderos" da região, tudo serve para se manterem em contacto. Sobretudo com os que vivem mais longe. "Inventamos desculpas para estarmos juntos sem levarmos na cabeça das namoradas", confessa Nuno.

E quando a hora de partir se avizinha, por volta dos 30 anos, a separa√ß√£o √© uma dor que se anuncia. "Todos os anos estou para sair, a fam√≠lia pressiona, tenho uma filha de ano e meio, mas n√£o consigo." Este √© Francisco Baltazar, um dos dois que j√° casaram, entre os 38 do Aposento da Moita, e que se viu obrigado pela crise a trocar os cavalos pelos autom√≥veis. "Sou licenciado em Equinicultura, cheguei a trabalhar numa coudelaria, mas fiquei desempregado. Agora trabalho na linha de montagem da Autoeuropa. √Č mais bem pago e mais seguro."


Por amor à camisola

Uma das coisas que muitos forcados t√™m em comum nos longos invernos sem toiros √© uma outra paix√£o violenta, a do r√Ęguebi. "Joguei futebol, mas n√£o tem nada que ver com o r√Ęguebi. N√£o √© um jogo individual [o r√Ęguebi], √© muito mais um desporto de equipa. √Č como os forcados: joga-se por amor √† camisola", observa Nuno. "No r√Ęguebi h√° igualmente o esp√≠rito de grupo, o contacto f√≠sico, mas tamb√©m √© uma moda, como para os forcados da ilha Terceira √© o basquetebol, talvez por influ√™ncia dos americanos", acrescenta Jos√© Maria Bettencourt (20 anos e seis toiros pegados como forcado da cara nas 15 corridas em que o grupo j√° participou nesta √©poca, nove das quais em Agosto).

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Tomás Torre do Vale de regresso à arena

Jos√© Pedro, o cabo, n√£o ignora as cr√≠ticas e as opini√Ķes negativas que muita gente tem deles. "√Č claro que h√° quem nos veja como uns b√°rbaros, arruaceiros, b√™bados. S√£o r√≥tulos que nos perseguem, mas que n√£o t√™m nada que ver com a realidade de hoje", afirma. Sem excluir os excessos que por vezes acontecem, "como em todo o lado". Nuno Mata tem o ascendente que lhe d√° a grandeza e a for√ßa an√≠mica com que encarou e vive o desastre. Para l√° dos dez anos que pegou quase sempre na frente, cara a cara com o toiro. "N√£o somos flores de estufa, samaritanos intelectuais. Somos jovens." O que quer dizer, subentende-se, que gostam de beber e que por vezes h√° quem v√° longe de mais.

A Nuno In√°cio, o de Alenquer, custam-lhe as generaliza√ß√Ķes. Fala do "brio, dignidade e orgulho" com que se dedica a esta actividade e acha que actualmente os forcados, globalmente, j√° n√£o s√£o malvistos como noutros tempos. "Somos queridos pela sociedade e pela popula√ß√£o da Moita. Toda a gente nos conhece, toda a gente gosta de n√≥s." Na perspectiva de Vasco Pinto, um dos cabos de Alcochete (os dois s√£o primos), a imagem que nalguns meios persiste deles n√£o passa de um "mito" sem raz√£o. "N√£o andamos na festa dos toiros para partilhar discotecas e copos. Isso √© uma consequ√™ncia da nossa viv√™ncia com os outros. Um forcado √© um estudante, um administrador, um contabilista, um profissional seja do que for, igual aos outros. N√£o √© por se ser forcado que se tem uma atitude diferente face √†s mulheres. √Č o mesmo que dizer que os adeptos do Benfica t√™m todos bigodes."

E aqui já estamos a falar de mulheres, de machismo, marialvismo, outros tantos epítetos que lhes estão grudados à pele. João Ventura, o informático que não tem raízes familiares na chamada "festa brava", nunca sentiu a condenação feminina. "Acho que as minhas colegas têm alguma admiração por eu ter uma actividade um bocado invulgar. Olham-me como um maluco, mas no bom sentido. Há um certo fascínio pelos forcados."

Motivos para ser de outra maneira também não os vislumbra. "A maior parte de nós somos pessoas bem formadas, com cursos superiores, com objectivos na vida." O que lhe parece é que os seus colegas de trabalho têm em relação a ele uma "sensação de estranheza". A pergunta mais frequente é esta: "Não tens medo?"


Homens valentes

Quase trinta anos mais velho, Domingos Figueiredo tem um olhar que alguns mais novos talvez partilhem, mas não verbalizam, até porque a relação entre os jovens dos dois sexos são agora outras. A ideia, já expressa antes, é a de que as mulheres, em regra, gostam dos forcados. Mas no seu tempo, pergunta-se-lhe, elas não receavam o lado violento das práticas taurinas? "Não, porque nós queimávamos o excesso de testosterona nas praças", responde, desarmante.

As explica√ß√Ķes mais fisiol√≥gicas levam ali√°s o empres√°rio a afirmar que a explos√£o do n√ļmero de forcados ocorrida depois do 25 de Abril se deveu ao fim da guerra de √Āfrica. "Os homens precisavam de eliminar o excesso de energia e de agressividade. Os homens s√£o agressivos, somos predadores, √© preciso n√£o esquecer."

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Os socorristas observam a corrida

A confirmar que o mundo dos toiros √© complexo e pouco adequado a julgamentos apressados, a√≠ est√£o as palavras de Piedade Salvador, uma mulher de 63 anos que no in√≠cio de Agosto participou na sua terra, Samora Correia, na apresenta√ß√£o de tr√™s livros do hist√≥rico forcado Eurico Lampreia (63 anos tamb√©m). Convidada pelo autor a falar sobre mulheres, Piedade, conhecida como a "poetisa do povo", n√£o poupou as palavras para dar forma a um discurso comprometido, profundamente feminista, sobre a "luta pela liberta√ß√£o das mulheres". Em defesa "das que n√£o t√™m voz", contra a "viol√™ncia dom√©stica e os maus tratos". E quando os que a n√£o conheciam, boquiabertos, esperavam um golpe de miseric√≥rdia nos seus anfitri√Ķes, Piedade acabou a lembrar algumas mulheres que foram "aut√™nticas rainhas da festa". Da festa dos toiros, entenda-se.

Para ela, disse-o depois, n√£o h√° por a√≠ contradi√ß√Ķes. "Eu falei aqui das mulheres que sofrem, daquelas que est√£o totalmente √† parte do mundo de que fala o Eurico nos seus livros. Mas eu sou uma aficionada, gosto imenso do trabalho dos forcados. Para mim, quando os vejo na pra√ßa, s√£o homens valentes, homens de ra√ßa, homens de cora√ß√£o. Mesmo que por vezes aconte√ßam com eles coisas que n√£o deviam acontecer." Mas isso n√£o √© uma caracter√≠stica espec√≠fica dos forcados. "Eles n√£o s√£o necessariamente machistas. Pode haver casos pontuais, como em tudo na vida, mas nunca me pareceu que fossem mais violentos do que os outros."

Como que a desculpar-se, Piedade vai buscar √† inf√Ęncia, e ao ambiente do seu Ribatejo natal, o gosto por esta maneira de os humanos se relacionarem com os toiros. "Sempre a vi como natural. O meu av√ī era campino. Quantas vezes o vi, para fugir deles, a espetar-lhes a vara. N√£o encontro a√≠ uma crueldade t√£o grande como algumas pessoas apontam."

Agora é a vez do outro anátema, a crueldade, que pesa sobre os ombros dos forcados, menos é certo, do que sobre os restantes intervenientes nestes espectáculos. "O toiro é o animal que mais respeito e mais admiro. E já peguei 144", afiança Vasco Pinto, tal como o fazem praticamente todos os aficionados. Então porque é que o incomoda? "Não o incomodo. Só o tento domar. Não há ninguém no mundo que respeite tanto o toiro como os próprios intervenientes na festa brava."

Miguel Jacob, por sua vez, considera o toiro como "o animal mais bonito e nobre que existe". E sustenta que os forcados n√£o lhe fazem mal. "Tratamo-lo bem. Damos-lhe dignidade. Ele √© criado exclusivamente para aquilo. √Č na pra√ßa que realiza a sua miss√£o. Cavaleiro, toureiro e forcado contribuem para isso. N√≥s estamos ali para nos divertirmos com dignidade e respeito. N√£o estamos para humilhar ningu√©m."

√Ä porta do Campo Pequeno, no √ļltima noite em que l√° actuaram os grupos da Moita e de Alcochete, havia dezenas de pessoas que n√£o tinham a mesma opini√£o e a manifestavam com palavras de ordem e cartazes pouco simp√°ticos. "N√£o ligamos", dizem quase sempre os forcados. "Desde que me respeitem, est√£o no seu direito. Claro que n√£o √© agrad√°vel ouvir gritar "rapazes educados n√£o s√£o forcados"; mas n√£o me dirijo a eles", comenta o educad√≠ssimo Nuno In√°cio, que acabara de ser premiado com o trof√©u da melhor pega da noite.

"Eles t√™m o direito de nos criticar, como n√≥s temos o direito de participar numa festa que √© reconhecida pela Constitui√ß√£o da Rep√ļblica no √Ęmbito da liberdade cultural", defende tamb√©m Vasco Pinto.

A primeira coisa que pensei depois do acidente foi em voltar à arena
Nuno Carvalho ‚ÄúMata‚ÄĚ, forcado da Moita


Num outro plano, estão os amigos que não pertencem ao círculo dos amantes das touradas. "Tenho alguns que não ligam, nem sequer gostam", conta Nuno Inácio. O cabo do seu grupo, José Pedro, também os tem, mas daí não lhe vêm problemas. "Partimos do princípio de que quando são nossos amigos nos compreendem."

√Č de compreens√£o que fala igualmente Diogo Van Den Toorn, o forcado de Alcochete que √© tamb√©m um dos capit√£es da equipa de r√Ęguebi do Sporting. A fam√≠lia holandesa n√£o tem nada que ver com toiros, mas n√£o o condenam. "Acham piada. O povo holand√™s √© muito aberto. V√™em na televis√£o e gostam."

O outro Nuno - o que h√° um ano deixou os amigos destro√ßados, mas "conseguiu ser ele e a namorada, que tem sido extraordin√°ria, a dar for√ßa ao grupo para vencer o drama" que os atingiu a todos (palavras de Jos√© Maria Bettencourt) - at√© tem amigos que "s√£o antitaurinos". O que n√£o admira, porque tal como Diogo vem de dois mundos. "Os meus av√≥s maternos s√£o angolanos, n√£o tenho ningu√©m da fam√≠lia nos toiros." Nuno assegura, por√©m, que os amigos antitaurinos, entre os quais antigas namoradas, acrescenta com uma gargalhada, "sempre respeitaram" as suas op√ß√Ķes.



E valeu a pena Nuno? Ou não voltaria fazer o que fez? "O que me aconteceu, ficar tetraplégico, aconteceu a fazer aquilo de que gostava. Podia-me ter acontecido, como a alguns rapazes que conheci no Alcoitão [clínica de reabilitação], a dar um mergulho. E agora eu era quem? Não tinha identidade! Não tenho qualquer tipo de arrependimento."

in P√ļblico.pt
José António Cerejo (texto) e Vítor Cid (fotografia)

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